domingo, 20 de setembro de 2015

SOBRE O 22º FESTIVAL NORDESTINO DE TEATRO DE GUARAMIRANGA, por Celso Jr.

por Celso Jr.

Foto: Sol Coêlho

O Festival Nordestino de Guaramiranga é, sem dúvida, um dos mais expressivos e importantes festivais de teatro brasileiros. Em 2015, o festival realizou sua 22ª edição, trazendo espetáculos profissionais e universitários de vários estados nordestinos, além de uma peça de Santa Catarina e outra do Chile.

Guaramiranga é uma pequena cidade com apenas 4 mil habitantes, incrustada em pleno Maciço do Baturité, uma serra cearense, e que possui anualmente três grandes festivais culturais, o de Teatro, um de Jazz e ainda outro de Gastronomia. O clima da cidade varia entre 31ºC pela manhã até confortáveis 16ºC à noite.

A cidade possui um teatro de médio porte, o Teatro Rachel de Queiroz, que está fechado para “reforma” há mais de 4 anos. (Eu estive dentro deste lindo teatro, e não vi nenhum sinal de reforma, apenas abandono, o que é uma tristeza)

As apresentações do Festival de Teatro acontecem no Teatrinho Rachel de Queiroz (um pequeno galpão com um bom palco, e plateia para 180 pessoas) e outros espaços semelhantes. Na manhã seguinte às apresentações, são realizados ricos debates a respeito dos espetáculos apresentados, onde os grupos podem expor os seus processo de criação e são comentados por debatedores do calibre de Pedro Domingues (Ceará), Narciso Teles (Minas Gerais) e Valéria Rocha (Brasília).

Dos 25 espetáculos apresentados entre os dias 5 e 12 de setembro, eu pude assistir a 7 deles. Eis algumas impressões.

PROJETO ACHADOS & PERDIDOS (Ceará)

Espetáculo criado a partir de improvisações de fragmentos de memórias do elenco e do diretor Andrei Bessa. O público foi recepcionado pelo elenco – Edivaldo Batista, Keka Abrantes e Danilo Castro – no pequeno galpão do Espaço Cultural Rolim, onde duas grandes filas de cadeiras haviam sido dispostas, uma em frente à outra, e o espaço da cena repleto de objetos ativadores da memória do próprio espectador. Brinquedos, máscaras, caixas que podem ser manipulados pela plateia. A seguir, os atores se lançam em sequências de jogos improvisados que, ora passeiam pelo humor, ora por momentos de grande lirismo, chegando ao erotismo, e à escatologia. Eles trazem pra cena o risco, o jogo em estado quase puro, em cenas que transitam pelo documento biográfico e a reconstrução da memória. Um belíssimo espetáculo, resultado de uma consistente pesquisa cênica.

AS TRÊS IRMÃS (Traços Cia. de Teatro – Santa Catarina)

Com adaptação e direção de Marianne Consentino, As três irmãs é uma imersão na obra de Anton Tchékhov a partir de técnicas de clown. O que aparentemente seria estranho, empresta ao universo tchekhoviano um lirismo e uma leveza arrebatadores. As excelentes atrizes Débora de Matos, Greice Miotello e Paula Bittencourt constroem Olga, Macha e Irina a partir de estímulos criados em rotinas de bufonaria e clown e usam a plateia para completar o elenco da trama de Tchékhov. O resultado é encantador.

QUINCAS (Grupo Osfodidário – Paraíba)

O grupo traz para a cena o universo mítico de Jorge Amado, com a peça baseada em Quincas Berro D’Água. Numa montagem em ritmo alucinado, divertidíssima, o grupo consegue momentos de criação especiais, utilizando litros e litros de água, e encharcando o palco. Bons atores, mantêm a comunicação com a plateia o tempo todo.

JÓ (Grupo EMA – Experimentos Multi Artísticos – Ceará)

Exercício cênico criado como resultado de uma disciplina de de Interpretação Teatral, da Universidade Regional do Cariri. O excesso de emocionalização e a intensidade desmedida na atuação afastam qualquer possibilidade de fruição, mesmo com a utilização da bela adaptação criada originalmente pelo Teatro da Vertigem.

A DONA DA HISTÓRIA (Duas Companhias – Pernambuco)

A partir do texto de João Falcão, as atrizes Lívia Falcão e Olga Ferrario dão vida à mesma personagem em dois tempos diferentes de sua vida, aos 20 anos e aos 50. O texto, escrito originalmente para Marieta Severo e Andréa Beltrão, ganha novos contornos, principalmente pela leveza da direção de Duda Maia e pelo delicioso sotaque recifense das atrizes. Dispensando totalmente os cenários e usando um design de luz sofisticado, A dona da história é encantador.

ROMEU E JULIETA (Grupo Garajal – Ceará)

Adaptação da tragédia de William Shakespeare, apresentada ao ar livre, em uma linguagem repleta de termos e expressões regionais, utilizando elementos circenses de acrobacia, pirofagia e equilibrismo. A montagem imprime um ritmo frenético, com referências à cultura popular nordestina e usando canções executadas ao vivo. Figurinos inventivos e soluções interessantes. Uma preciosidade do teatro vindo de Maracanaú.

PEDRO DE VALDÍVIA (Grupo Tryo de Teatro Banda – Chile)

Usando recursos de teatro e música, o grupo reconta de modo brilhante e inventivo, num ritmo estonteante, a história da conquista do Chile, a partir da figura histórica de Pedro de Valdívia. Usando humor e muita música, os três atores/cantores/musicistas, passeiam por vários massacres indígenas e articulações políticas realizadas para a fundação do país, em troca do ouro aos espanhóis.

SALUBA.MEDEIA (Grupo Caixa Cênica – Sergipe)

Saluba.Medeia, uma visão contemporânea do mito trágico. Eu estive no Festival, apresentando Saluba.Medeia, escrito e dirigido por mim.


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Achados & Perdidos fica entre os melhores no júri-popular de Guaramiranga (CE) - Jornal O Povo

Foto: Sol Coêlho

Por Paulo Renato Abreu

O Festival Nordestino de Teatro (FNT) de Guaramiranga encerrou, no sábado, 12, sua 22ª edição com uma boa notícia: a sinalização de que a reforma do Teatro Rachel de Queiroz vai sair. Fechado desde 2011 por conta da infraestrutura comprometida, o espaço deve ser restaurado por meio da Lei de Mecenato. Quem afirmou foi Guilherme Sampaio, titular da Secretaria da Cultura do Estado, no encontro Diálogos Culturais realizado durante o evento.

“Eu me comprometi em estabelecer uma negociação com empresários que são muito reconhecidos no Estado e que amam a serra (Maciço de Baturité). Nós recebemos de dois desses grandes empresários cearenses uma sinalização positiva, que gostariam de colaborar”, destacou Guilherme.

Apesar da ausência do importante equipamento cultural, a cidade respirou artes cênicas entre os dias 5 e 12 de setembro. Espalhado em diferentes mostras, como o FNT para Crianças e a Mostra Nordeste, o evento teve ainda lançamento de livros, música e debates. O público elegeu o espetáculo pernambucano A Dona da História, da Duas Companhias, como o melhor da edição. Além do vencedor, ficaram entre os três mais votados, A Casatória c’a Defunta, da Cia. Pão Doce, do Rio Grande do Norte, e Achados & Perdidos, do grupo cearense que dá nome ao espetáculo.

“Nós e o público estávamos numa sintonia bacana, muita gente saiu bastante emocionada, tocada com as nossas provocações. Acho que em Guaramiranga o espetáculo se ‘plurificou’”, destacou o ator cearense Danilo Castro, que se apresentou na última segunda, 7. Destaque do Ceará na Mostra Nordeste, o espetáculo Achados e Perdidos figurou na programação ao lado de peças de estados como Bahia e Sergipe. “A gente aprendeu muito e nos fortificamos enquanto coletivo, só temos a agradecer”, resume o artista.

* O jornalista viajou a convite do evento.

Fonte: Vida & Arte - Jornal O Povo