quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Projeto Achados & Perdidos no Teatro Carlos Câmara


Ele morreu em 1939. Após 35 anos, um teatro foi erguido em sua homenagem. 20 anos depois, o espaço fechou as portas numa lacuna que durou mais 20 anos. Em 2014, o Projeto Achados & Perdidos faz parte da programação que está reativando o Teatro Carlos Câmara, em Fortaleza. Essa memória agora também é nossa.

Serviço


31/10 - Projeto Achados & Perdidos, 18n30min
Teatro Carlos Câmara (Rua Senador Pompeu, 454, Fortaleza - CE)
Entrada franca. 

domingo, 21 de setembro de 2014

Para pensar uma dramaturgia do Eu, por Maurileni Moreira


Por Maurileni Moreira

O Projeto Achados e Perdidos – coletivo composto por Andrei Bessa, Danilo Castro, Edivaldo Batista e Keka Abrantes – delineia-se numa dramaturgia processual movida a memórias. Lá tudo está milimetricamente organizado para uma eventual exposição de lembranças. Há brinquedos, folhas riscadas de uma carta entregue, bonecos como o Fofão e até aquele brinquedinho de pescaria da infância, aquele de pescar peixinhos que ficam rodando numa maquinaria verde. E você com a varinha de plástico na mão: lá, pescando paciência por um tempo que segue seu fluxo.

Não há como não ter identificações. Nem metáforas. Minutos prévios ao espetáculo iniciar dava para ouvir o público falar: ‘eu morria de medo do Fofão’ ou ‘Lá na minha vó tinha uma santa que nem essa’ ou ‘Aquelas fotos antigas me lembram pessoas mortas.’ O público estava colocado em duas fileiras, uma defronte à outra. Duas arquibancadas. No meio o espaço cênico. Instantaneamente a ideia de espelho, reflexo, surge.  Vê-se no outro e no estar ali, nesse lugar, que a experiência é conjunta, um fazer que diz muito de uma vida. Há uma necessidade humana de que nossas construções não se percam e que, se se perderem,  tornem-se pelo menos memorial do fim. O espetáculo que esteve em cartaz nos dias 6 e 7 de Setembro no Teatro do Sesc Iracema em Fortaleza traz em sua poética um resgate da memória e exposição do eu.

As cenas construídas estão em jogo constante: desde a escolha malograda de uma mãe que deu um nome excêntrico à filha, até a cena em que todos emudecem e os atores se tornam corpos-objetos em imagens que lembram abuso sexual. Agora o espaço já está num caos estabelecido. Eles sussurram: “Isso é um segredo nosso”.

As cenas levantadas são varias, chegam a passar por memorias de um suicida ate a uma sequência coreográfica ‘decorada’ e dançada de uma música da banda Spice Girls. Sem falar da cena que ‘alivia’ a alma, com Edivaldo Batista. Ele quer ser uma santa, mas seus olhos não se compadecem à santidade obrigatória, porque, em suma, todos têm sofrimentos e condolências  – o estado do corpo que fere e é abatido. Corremos sempre em busca de uma salvação, não necessariamente divina, dessas cotidianas, quando enfrentamos e empunhamos guerras e milagres.

Viver em uma cidade desmemoriada poderia ser o nosso maior pecado. Pecado aqui quer dizer: as pedras nas quais tropeçamos. Drummond já escrevia: Tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra.

A atuação busca confundir o real. As histórias contadas indagam a esta pergunta: será de fato historias deles (dos atores) ou eles estão interpretando? Como trabalhar a realidade nesse jogo de quase um faz-de-conta? A confusão parte porque não é possível saber aonde existe a personagem e aonde existe o ator. Vale pensar também: Há personagens? Talvez não, mas há a fabricação de uma dramaturgia que se coloca no âmbito do particular e alça voos para o geral. Nesse sentido pode-se compreender uma construção das relações no espaço dramático (tensões, conflitos, enlace).

Vemos como é possível interpretar a si mesmo, não no sentido de uma fabulação, mas como dar a si um potencial dramático a partir das histórias, sem que se perca o que costumamos chamar de Trabalho de Ator –  aquele que busca novas maneiras de falar, trejeitos físicos, mundos particulares seus que vai ao encontro do desafio, que exige do ator que ele mergulhe na construção do personagem.

“Um fluxo constante de espontaneidade é a única maneira de se manter o frescor de um papel, e de se assegurar sua constante evolução.  Na ausência desta qualidade, a força de qualquer papel entrará em declínio de algumas representações. ( … ) O imprevisto costuma ser uma poderosa alavanca evolução todo o trabalho criador. ” ( Manual do ator, C. Stanilavski. Martins Fontes.  Pg 80)

Talvez fosse interessante ver o ator em seu estado ‘normal’ enquanto pessoa na cena e seu estado interpretativo para que pudéssemos ter em mente duas imagens criadas, que iriam se distinguir entre si aos nossos olhos, posto que nos indagamos: Aonde encontramos a linha tênue da interpretação? Esses questionamentos são necessário ou devemos nos deter tão somente a ver o particular em cena, contribuindo para um deslocamento micro→macro, referente às atuações pessoais?

O Projeto Achados e Perdidos cumpre o jogo da re-descoberta; o processo de imersão e aprofundamento de si que resvala no Outro. Uma violência ao corpo, perfurando o tecido fino das nossas experiências: a pele. Vídeo, instalações, performances e jogo. Muitos jogos. Um projeto que chega como um convite a si mesmo.

(Ralph agora embaralha as palavras digitadas e desliga o computador.)

Fonte: Cena Coletiva